O anticoncepcional hormonal oral é um dos medicamentos mais prescritos para mulheres no Brasil. É eficaz para o controle da fertilidade e amplamente usado no manejo de SOP, endometriose, dismenorreia e síndrome pré-menstrual.
Mas existe um aspecto do uso prolongado que raramente é discutido em consulta: a depleção de nutrientes essenciais.
O mecanismo da depleção nutricional
Os anticoncepcionais hormonais contendo estrogênio e/ou progestogênio interferem no metabolismo de diversas vitaminas e minerais por diferentes vias:
- Alteração na absorção intestinal
- Aumento da excreção renal
- Modificação no transporte proteico de vitaminas
- Interferência na síntese e ativação de cofatores enzimáticos
O resultado é uma depleção progressiva — que não causa deficiência grave em curto prazo, mas compromete silenciosamente funções metabólicas, hormonais e neurológicas ao longo do tempo.
Quais nutrientes o anticoncepcional depleta
A literatura científica documentou depleção significativa para os seguintes nutrientes no uso prolongado de anticoncepcionais orais combinados:
Vitamina B12: Essencial para saúde neurológica, produção de glóbulos vermelhos e metabolismo celular. Deficiência se manifesta como fadiga, névoa mental e alterações de humor.
Ácido fólico (vitamina B9): Fundamental para a síntese de DNA, maturação celular e saúde do sistema nervoso. Sua deficiência é especialmente crítica para mulheres que desejam engravidar após suspensão do anticoncepcional.
Vitamina B6 (piridoxina): Cofator em mais de 100 reações enzimáticas. Envolvida na produção de serotonina, dopamina e GABA. Sua depleção está associada a irritabilidade, depressão e síndrome pré-menstrual intensa.
Vitamina B2 (riboflavina): Essencial para o metabolismo energético e para a ativação das demais vitaminas do complexo B.
Vitamina C: Além das funções imunológicas, é cofator na síntese de colágeno e na absorção de ferro. O anticoncepcional aumenta sua excreção.
Zinco: Mineral essencial para função imunológica, saúde da pele, regulação hormonal e fertilidade. A depleção de zinco está associada a queda de cabelo, acne e comprometimento da imunidade.
Magnésio: O anticoncepcional altera o metabolismo do magnésio, contribuindo para sintomas como enxaqueca, cãibras, insônia e ansiedade.
O perfil da depleção na prática clínica
A depleção não acontece uniformemente. Depende de:
- Tempo de uso (quanto mais longo, maior o impacto)
- Qualidade da alimentação da paciente
- Presença de outras condições que comprometem absorção (disbiose, hipocloridria)
- Polimorfismos genéticos que afetam o metabolismo de vitaminas do complexo B
Mulheres que usam anticoncepcional por mais de 2 anos têm maior probabilidade de apresentar depleção clinicamente relevante — especialmente de B12, B6 e folato.
O que monitorar durante o uso de anticoncepcional
Um painel básico anual para usuárias de anticoncepcional oral de longo prazo deve incluir:
- Vitamina B12 sérica
- Folato eritrocitário
- Vitamina D
- Zinco sérico
- Magnésio eritrocitário
- Ferritina
- Hemograma completo
Suplementação: quando e como
A suplementação deve ser individualizada com base nos exames e no contexto clínico da paciente. Para usuárias de longo prazo, especialmente aquelas com dieta restritiva, queixas de fadiga, alterações de humor ou planejando gestação, o acompanhamento nutricional com monitoramento laboratorial é indicado.
Usar anticoncepcional é uma decisão legítima. Mas ela deve vir acompanhada de rastreamento nutricional — o que, hoje, raramente acontece. A consulta de nutrição não é o lugar para questionar a prescrição ginecológica. É o lugar para garantir que o organismo tenha os recursos para funcionar bem enquanto o usa.

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